O adolescente homossexual na escola
Por Charles Figueiredo
Muito se tem falado acerca dos alunos homossexuais nas escolas, da atitude desses adolescentes frente aos obstáculos, do preconceito disseminado pela grande maioria heterossexual em relação a esse ser “alienígena” fora dos padrões e dos esquadros da normalidade. Se torrentes de pesquisas forem feitas referentes ao grau ou existência do preconceito dentro das instituições de ensino formal será expressivo o índice de reprovação ou discriminação contra aqueles que são vistos como indivíduos de “comportamento sexual desviante”.
Abordar homossexualidade é sempre motivo de desconforto cultural/religioso, é sempre embate e tentativa de justificações e dentro das escolas o desconforto amplia-se, pois vem acompanhado de bullying, ignorância e mistificações, quando não, relega o adolescente “inadequado” à indiferença, ao distanciamento, ao ostracismo. Esse espaço é veladamente cruel, segregador e punitivo que demonstra (contrariando a crença de que deveria ser espaço de transformação e construção de reflexões) a preferência pela manutenção do essencialismo em detrimento de concepções mais contemporâneas que privilegiam a ideia de construção social das identidades. Na instituição escolar, o que se pretende é “a constituição de sujeitos masculinos e femininos heterossexuais- nos padrões da sociedade em que a escola se inscreve” (LOURO 2003, p.81)
O homossexual é também no ambiente escolar, um elemento marginalizado que tem por algoz principal a disseminação e perpetuação dos hábitos, dos costumes, da cultura. Se o papel da escola é humanizar os indivíduos auxiliando-os a encontrar rumos e soluções que os tornarão plenos enquanto cidadãos, onde e como ela deveria atuar a fim de que o desconforto da inadequação do proscrito, especialmente do adolescente homossexual, se desvanecesse ou se tornasse o menos traumático possível? Não é possível falar em inclusão, aceitação, celebração das diferenças, quando a própria escola na pessoa dos agentes ativos do processo ensino/aprendizagem (professores, gestores, alunos heterossexuais) perpetuam as atitudes padronizadas e preconceituosas ainda que inconscientemente.
Os passos dados em direção a um pensamento inclusivo, que aceita o diverso e o incomum, ainda são lentos e curtos, pois perpassam quebra de regras morais, entretanto, está nas mãos da escola a decisão de insistir para que se garanta a formação de indivíduos capazes de lidar, interagir e coexistir com os vários grupos existentes na sociedade independente das concepções de gênero, desempenhos sociais e identidades. A escola tem que se apropriar de modo natural das ferramentas que poderão ser fornecidas ao aluno homossexual no processo de construção da própria identidade e na sua auto-afirmação enquanto indivíduo pleno e intelectualmente competente.
Não é possível negar que há na sociedade como um todo uma ausência de conhecimento sobre a diversidade sexual, há uma deficiência tanto nas práticas escolares que incentivem o debate sobre o assunto, quanto nos esclarecimentos das dúvidas que minimizem as atitudes homofóbicas. Quando se trata de homossexualidade no ambiente escolar, se qualquer estudo ou pesquisa for feita, ficará evidente que professores, orientadores e pais ainda não estão preparados para lidar com o tema. É possível que esse desconforto referente à homossexualidade do aluno adolescente, se reduzisse de modo considerável a partir do momento em que a escola paulatinamente começasse a abordar de modo aprofundado (não apenas como temática transversal), quiçá como um elemento próprio do currículo, a temática da diversidade e orientação sexual.
Encontrar as possibilidades de respostas para os questionamentos aqui propostos se constituiria num primeiro e tímido passo rumo a uma pedagogia de aceitação do diferente como parte do todo, entendendo-o como ser pleno, capaz, produtor e transformador da realidade circundante tanto quanto qualquer outro com direito a sê-lo. Seria uma contribuição à existência de um espaço escolar onde o aluno homossexual não precisasse do recurso da agressão para ser ouvido e fazer valer seus direitos, pois ele teria a possibilidade de expressar-se pelo que pensa sem necessidade de esconder o que é ou sente.
Mais do que nunca vivemos os dias do magno discurso da inclusão no espaço escolar, celebram-se (no papel) a coexistência dos diferentes, inserindo no ambiente escolar regular os alunos portadores de necessidades especiais, mentais ou físicas. Ainda que sob o jugo dos percalços da falta de instrumentalização dos profissionais para receber a clientela especial e tantos outros entraves que impedem a eficácia da tentativa de inclusão, ela é foco dos cuidados da educação hodierna. Mas, quando se trata dos homossexuais, classe também historicamente excluída do “normal” na escola, a atitude predominante ainda é a da exclusão, e isso é notório no incômodo dos professores ao abordar o tema quando, por força das circunstâncias, algum incidente que envolva a questão surge na escola; quando, por exposição e visibilidade dos mais “corajosos”, seu jeito de ser se torna alvo de chacotas dos colegas e da comunidade escolar como um todo.
Para Goffman o estigma é um atributo profundamente depreciativo. O homossexual é estigmatizado assim como outras categorias que se entregassem aos vícios e fraquezas do corpo e ou aqueles que fugissem aos padrões impostos inclusive pela mídia. Para esse autor, “por definição, é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida” (GOFFMAN 1988, p.15).
Na rotina dentro das escolas ainda são comuns as situações para as quais os professores fazem vistas grossas diante das agressões verbais proferidas por alunos heterossexuais, talvez por crer que um aluno homossexual que se expõe em suas atitudes e comportamento mais feminilizados mereça ser chamado de viado ou bicha com toda carga depreciativa que tais palavras trazem. Para o senso comum, como a homossexualidade se aproxima da feminilidade, as agressões homofóbicas se justificam nesse contexto de demarcação de fronteiras entre o masculino- forte, superior- e o feminino- fraco, inferior (CONNELL, 1997). Logo, assume-se e valoriza-se a discriminação contra o homossexual, pois ela confirma e mostra identificação com a norma estabelecida (ROLAND, 2003). A fala é assim, uma forma de ação agressiva e a disputa pelo poder de proferi-la é uma constante na sociedade pela tentativa de delimitação dos lugares sociais dos falantes e a quem eles se dirigem (MOITA LOPES, 2002). Desse modo, o aluno que grita viado para um outro, está, em verdade, gritando para todos e /ou para si mesmo que ele próprio não é viado, utilizando-se da linguagem para construir um lugar confortável para si dentro do que é moralmente aceito – meninos e meninas/ homem e mulher-, o lugar do heterossexual pautado numa masculinidade como ela “deve ser”, agressiva e homofóbica investida do poder de pertencer ao círculo dos “normais”.
Fixar uma determinada identidade como a norma é uma das formas privilegiadas de hierarquização das identidades e das diferenças. A normalização é um dos processos mais sutis pelos quais o poder se manifesta no campo da identidade e da diferença. Normalizar significa eleger- arbitrariamente- uma identidade específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. A identidade normal é “natural” desejável, única (SILVA 2000, p.83).
Em algumas situações o aluno estigmatizado se aproxima de uns poucos membros da sala tornando-se aceito ao menos em parte por um número restrito de colegas, estabelecendo relação de familiaridade, mostrando que ele é “apesar de tudo” um cara legal. Para Goffman, nem a familiaridade elimina as respostas estereotipadas ou apaga o estigma, embora possa amenizá-los. A familiaridade nos levaria a vislumbrar as qualidades pessoais sem, no entanto, reduzir necessariamente o menosprezo, pois o que acreditamos ser próprio da categoria e da natureza de uma pessoa são percepções que ficam claramente impressas nesses contatos, “colocando-nos, mesmo nesse caso, em nosso lugar” (GOFFMAN 1988, p.63).
Os pais ainda receiam que ao abordar qualquer tema relacionado à sexualidade humana na escola, haveria aí um estímulo para a prática precoce do ato sexual. Em relação à homossexualidade, essa preocupação se maximiza de tal modo, pois além de desvio moral esse assunto é tratado também como doença, como algo que se contrai no contato com a pessoa “contaminada”. Assim, assuntos referentes à sexualidade só são socialmente aceitos no espaço escolar se a abordagem levar em consideração os aspectos da reprodução humana, descartando-se as reflexões sobre os padrões e a perpetuação da moral. Segundo Foucault, deve-se falar de sexo não simplesmente como algo a ser tolerado ou condenado, mas gerido e inserido em sistema de utilidade, “regulado para o bem de todos, fazer funcionar segundo um padrão ótimo. O sexo não se julga apenas, administra-se” (FOCAULT 1997, p.27). Por mais que a sociedade de hoje dê às questões de ordem sexual um lugar de destaque, numa tentativa claudicante de mostrar a quebra dos paradigmas medievais ou culturais e religiosos que ferem o direito do indivíduo de viver o que em essência ele é, ainda assim as relações negativas são feitas quanto a conduta sexual do indivíduo, criando regras, decidindo o que é lícito ou ilícito, permitido ou proibido, “das instâncias da dominação social às estruturas constitutivas do próprio sujeito” (FOCAULT 1997, p.27), e o que está em jogo é o poder.
O kit homofobia viria oportunamente para amenizar essas situações de conflito e educar os professores sobre como agir e se posicionar nessas zonas de desconforto...
ResponderExcluiranti-homofobia você quer dizer (risos)
ResponderExcluirCharles Figueiredo, meu orgulho, li seu texto, estou emocionada, mesmo sabendo que sua cabeça é maravilhosa e não poderia esperar algo diferente, e, se tivesse tempo ainda antes de parir, iria te pedir licença p/ trabalhá-lo com o 2o. ano, mas não faltará oportunidade...
ResponderExcluirDigo, q gostaria de trabalhá-lo agora, pois tenho feito seminários com eles (alunos do 2o. ano), trabalhando essas diferenças e outras, como coisas da vida, coisas normais,tentando enxergar as diferenças com os olhos de uma criança: sem julgamentos, sem maldades, sem exclusão, apenas como diferenças que existem e que de nada adianta a aceitação de terceiros, pois não vão deixar de existir, mas sim interferir no respeito... afinal, esse olhar torto p/ o que é diferente nós só adquirimos com a "maturidade" e, penso que a educação, tanto familiar qto escolar, é que corrompe a criança (quando feita equivocadamente, claro!). Vejo pessoas querendo tratar certos assuntos relacionados à sexualidade como algo q não é natural, impondo tabus ou apelando para a promiscuidade... vejo pessoas dizendo que um beijo homossexual na televisão vai influenciar crianças. O que eles não sabem, ou fingem não saber, é que estas criaturas verão tanto um beijo homo qto um hetero da mesma forma, sem certo ou errado, e quem vai trabalhar para q vejam como algo escandaloso, quem vai despertar a admiração ou o desrespeito pela cena, são os pais... o que é uma pena, pois os nossos adolescentes, tanto homo quanto heterossexuais, não vão ter respeito pela homossexualidade, nessa fase e, tristemente, talvez nas posteriores... os heterossexuais vão "aceitar" ou não, mas nunca tendo respeito, talvez para não ficarem fora da moda (já q, esta, dita a não-homofobia) e os homossexuais, talvez nunca consigam entender que eles são dignos de respeito, se escondem, se mostram demais para serem aceitos, pelo menos como os palhaços da turma (não que sejam, mas muitos deles tentam chamar a atenção para a sua confusão mental dessa forma, é um apelo!)... essa "aceitação" não é respeito, assim tb, como o comportamento dele não é, seja se escondendo ou não! imagine o que não se passa na cabeça dessas criaturas, que por imposição da sociedade, mesmo lutando para se aceitarem e depois para serem aceitos, eles não conseguem perceber respeito por si...não conseguem sentir respeito pela própria sexualidade...
Acredito em vc, para ajudá-los, não só pela sua visão maravilhosa, mas por ser um educador de verdade e, para muitos, um exemplo pessoal a ser seguido, pois vc mostra a eles a sua segurança e respeito diante dos olhares que o julgam o tempo todo. Que vc seja essa inspiração para os nossos alunos, alguns, nós sabemos, demoram a perceber essas coisas, mas são coisas da idade e de toda desorientação sofrida por toda uma vida! e para mim, vc já é... claro!
peço lincença, agora, para compartilhar com alguns amigos o seu link... posso?
beijos
Juliana! Ja pariu? kakakakaka tomara que tenhas uma boa hora huahuahuahuahuahua. Fico feliz com tuas palavras e em saber que ainda há "vida inteligente" afundada comigo nesse mangue de "caranguejos" hahaha. pode compartilhar o link- com o mundo todo se vc quiser heheheheheh. Bejim!
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