quinta-feira, 9 de junho de 2011

Por um dia

                             Somente hoje
                                                                                       Charles Figueiredo

   Apenas por hoje desejei... ousei imaginar que todos aqueles a quem amo, a quem quero bem pudessem flutuar em êxtase como que presos numa bola de sabão. Desejei, e com tanto afinco, que nenhuma lágrima jamais tivesse rolado a menos que tivesse sido pela soberba "inexplicabilidade" transmitida pela força da plenitude do contentamento extremo.
        Apenas por hoje eu queria ter sido o possuidor do dom de tocar a alma dos que me cercam e delas ter provado o sabor, alterado-lhes o gosto e depositado nelas flavonóides, endorfinas, dopaminas...deixá-las coloridas como balas de goma açucaradas.
       Apenas por um dia quisera vê-los em suas cápsulas nacaradas  todos cruzando o bosque verdejante e perfumado onde lavadeiras com rodilhas alvas sobre as cabeças caminhassem enfileiradas em cantoria efusiva e sibilante fazendo-os em urgência ganhar o céu, e tudo em que se pudesse pensar fosse apenas o banho laranja dos raios esmaecentes do sol no fim de tarde... não há dor... não há a lágrima da angústia, do aprisionamento, do medo...
       Quisera vê-los todos em seus tons de azul nos azuis e em asas de liberdade ver voar os meninos a quem o sol do meio dia queimou, a quem o vento norte cortou e para quem a loja de doces no final do arco-íris ofereceu só a vitrine...
        Apenas hoje desejei que por um instante a mágica acontecesse e todos os seres humanos fossem pequenos sóis sem carne, sem culpa, sem regras, sem condenações, sem religiões, sem guardas... desejei que  esse estado ao ser vivido fosse sentido como necessário e imprescindível.... a armadilha estaria selada: os raios dessa aurora os viciaria em sua condição etérea, e seríamos todos acordes dourados de luz, seríamos o aroma do lar e os ósculos do universo orvalhados de paz.

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