Somente hoje
Charles Figueiredo
Apenas por hoje desejei... ousei imaginar que todos aqueles a quem amo, a quem quero bem pudessem flutuar em êxtase como que presos numa bola de sabão. Desejei, e com tanto afinco, que nenhuma lágrima jamais tivesse rolado a menos que tivesse sido pela soberba "inexplicabilidade" transmitida pela força da plenitude do contentamento extremo.
Apenas por hoje eu queria ter sido o possuidor do dom de tocar a alma dos que me cercam e delas ter provado o sabor, alterado-lhes o gosto e depositado nelas flavonóides, endorfinas, dopaminas...deixá-las coloridas como balas de goma açucaradas.
Apenas por um dia quisera vê-los em suas cápsulas nacaradas todos cruzando o bosque verdejante e perfumado onde lavadeiras com rodilhas alvas sobre as cabeças caminhassem enfileiradas em cantoria efusiva e sibilante fazendo-os em urgência ganhar o céu, e tudo em que se pudesse pensar fosse apenas o banho laranja dos raios esmaecentes do sol no fim de tarde... não há dor... não há a lágrima da angústia, do aprisionamento, do medo...
Quisera vê-los todos em seus tons de azul nos azuis e em asas de liberdade ver voar os meninos a quem o sol do meio dia queimou, a quem o vento norte cortou e para quem a loja de doces no final do arco-íris ofereceu só a vitrine...
Apenas hoje desejei que por um instante a mágica acontecesse e todos os seres humanos fossem pequenos sóis sem carne, sem culpa, sem regras, sem condenações, sem religiões, sem guardas... desejei que esse estado ao ser vivido fosse sentido como necessário e imprescindível.... a armadilha estaria selada: os raios dessa aurora os viciaria em sua condição etérea, e seríamos todos acordes dourados de luz, seríamos o aroma do lar e os ósculos do universo orvalhados de paz.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
terça-feira, 7 de junho de 2011
O adolescente homossexual na escola
Por Charles Figueiredo
Muito se tem falado acerca dos alunos homossexuais nas escolas, da atitude desses adolescentes frente aos obstáculos, do preconceito disseminado pela grande maioria heterossexual em relação a esse ser “alienígena” fora dos padrões e dos esquadros da normalidade. Se torrentes de pesquisas forem feitas referentes ao grau ou existência do preconceito dentro das instituições de ensino formal será expressivo o índice de reprovação ou discriminação contra aqueles que são vistos como indivíduos de “comportamento sexual desviante”.
Abordar homossexualidade é sempre motivo de desconforto cultural/religioso, é sempre embate e tentativa de justificações e dentro das escolas o desconforto amplia-se, pois vem acompanhado de bullying, ignorância e mistificações, quando não, relega o adolescente “inadequado” à indiferença, ao distanciamento, ao ostracismo. Esse espaço é veladamente cruel, segregador e punitivo que demonstra (contrariando a crença de que deveria ser espaço de transformação e construção de reflexões) a preferência pela manutenção do essencialismo em detrimento de concepções mais contemporâneas que privilegiam a ideia de construção social das identidades. Na instituição escolar, o que se pretende é “a constituição de sujeitos masculinos e femininos heterossexuais- nos padrões da sociedade em que a escola se inscreve” (LOURO 2003, p.81)
O homossexual é também no ambiente escolar, um elemento marginalizado que tem por algoz principal a disseminação e perpetuação dos hábitos, dos costumes, da cultura. Se o papel da escola é humanizar os indivíduos auxiliando-os a encontrar rumos e soluções que os tornarão plenos enquanto cidadãos, onde e como ela deveria atuar a fim de que o desconforto da inadequação do proscrito, especialmente do adolescente homossexual, se desvanecesse ou se tornasse o menos traumático possível? Não é possível falar em inclusão, aceitação, celebração das diferenças, quando a própria escola na pessoa dos agentes ativos do processo ensino/aprendizagem (professores, gestores, alunos heterossexuais) perpetuam as atitudes padronizadas e preconceituosas ainda que inconscientemente.
Os passos dados em direção a um pensamento inclusivo, que aceita o diverso e o incomum, ainda são lentos e curtos, pois perpassam quebra de regras morais, entretanto, está nas mãos da escola a decisão de insistir para que se garanta a formação de indivíduos capazes de lidar, interagir e coexistir com os vários grupos existentes na sociedade independente das concepções de gênero, desempenhos sociais e identidades. A escola tem que se apropriar de modo natural das ferramentas que poderão ser fornecidas ao aluno homossexual no processo de construção da própria identidade e na sua auto-afirmação enquanto indivíduo pleno e intelectualmente competente.
Não é possível negar que há na sociedade como um todo uma ausência de conhecimento sobre a diversidade sexual, há uma deficiência tanto nas práticas escolares que incentivem o debate sobre o assunto, quanto nos esclarecimentos das dúvidas que minimizem as atitudes homofóbicas. Quando se trata de homossexualidade no ambiente escolar, se qualquer estudo ou pesquisa for feita, ficará evidente que professores, orientadores e pais ainda não estão preparados para lidar com o tema. É possível que esse desconforto referente à homossexualidade do aluno adolescente, se reduzisse de modo considerável a partir do momento em que a escola paulatinamente começasse a abordar de modo aprofundado (não apenas como temática transversal), quiçá como um elemento próprio do currículo, a temática da diversidade e orientação sexual.
Encontrar as possibilidades de respostas para os questionamentos aqui propostos se constituiria num primeiro e tímido passo rumo a uma pedagogia de aceitação do diferente como parte do todo, entendendo-o como ser pleno, capaz, produtor e transformador da realidade circundante tanto quanto qualquer outro com direito a sê-lo. Seria uma contribuição à existência de um espaço escolar onde o aluno homossexual não precisasse do recurso da agressão para ser ouvido e fazer valer seus direitos, pois ele teria a possibilidade de expressar-se pelo que pensa sem necessidade de esconder o que é ou sente.
Mais do que nunca vivemos os dias do magno discurso da inclusão no espaço escolar, celebram-se (no papel) a coexistência dos diferentes, inserindo no ambiente escolar regular os alunos portadores de necessidades especiais, mentais ou físicas. Ainda que sob o jugo dos percalços da falta de instrumentalização dos profissionais para receber a clientela especial e tantos outros entraves que impedem a eficácia da tentativa de inclusão, ela é foco dos cuidados da educação hodierna. Mas, quando se trata dos homossexuais, classe também historicamente excluída do “normal” na escola, a atitude predominante ainda é a da exclusão, e isso é notório no incômodo dos professores ao abordar o tema quando, por força das circunstâncias, algum incidente que envolva a questão surge na escola; quando, por exposição e visibilidade dos mais “corajosos”, seu jeito de ser se torna alvo de chacotas dos colegas e da comunidade escolar como um todo.
Para Goffman o estigma é um atributo profundamente depreciativo. O homossexual é estigmatizado assim como outras categorias que se entregassem aos vícios e fraquezas do corpo e ou aqueles que fugissem aos padrões impostos inclusive pela mídia. Para esse autor, “por definição, é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida” (GOFFMAN 1988, p.15).
Na rotina dentro das escolas ainda são comuns as situações para as quais os professores fazem vistas grossas diante das agressões verbais proferidas por alunos heterossexuais, talvez por crer que um aluno homossexual que se expõe em suas atitudes e comportamento mais feminilizados mereça ser chamado de viado ou bicha com toda carga depreciativa que tais palavras trazem. Para o senso comum, como a homossexualidade se aproxima da feminilidade, as agressões homofóbicas se justificam nesse contexto de demarcação de fronteiras entre o masculino- forte, superior- e o feminino- fraco, inferior (CONNELL, 1997). Logo, assume-se e valoriza-se a discriminação contra o homossexual, pois ela confirma e mostra identificação com a norma estabelecida (ROLAND, 2003). A fala é assim, uma forma de ação agressiva e a disputa pelo poder de proferi-la é uma constante na sociedade pela tentativa de delimitação dos lugares sociais dos falantes e a quem eles se dirigem (MOITA LOPES, 2002). Desse modo, o aluno que grita viado para um outro, está, em verdade, gritando para todos e /ou para si mesmo que ele próprio não é viado, utilizando-se da linguagem para construir um lugar confortável para si dentro do que é moralmente aceito – meninos e meninas/ homem e mulher-, o lugar do heterossexual pautado numa masculinidade como ela “deve ser”, agressiva e homofóbica investida do poder de pertencer ao círculo dos “normais”.
Fixar uma determinada identidade como a norma é uma das formas privilegiadas de hierarquização das identidades e das diferenças. A normalização é um dos processos mais sutis pelos quais o poder se manifesta no campo da identidade e da diferença. Normalizar significa eleger- arbitrariamente- uma identidade específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. A identidade normal é “natural” desejável, única (SILVA 2000, p.83).
Em algumas situações o aluno estigmatizado se aproxima de uns poucos membros da sala tornando-se aceito ao menos em parte por um número restrito de colegas, estabelecendo relação de familiaridade, mostrando que ele é “apesar de tudo” um cara legal. Para Goffman, nem a familiaridade elimina as respostas estereotipadas ou apaga o estigma, embora possa amenizá-los. A familiaridade nos levaria a vislumbrar as qualidades pessoais sem, no entanto, reduzir necessariamente o menosprezo, pois o que acreditamos ser próprio da categoria e da natureza de uma pessoa são percepções que ficam claramente impressas nesses contatos, “colocando-nos, mesmo nesse caso, em nosso lugar” (GOFFMAN 1988, p.63).
Os pais ainda receiam que ao abordar qualquer tema relacionado à sexualidade humana na escola, haveria aí um estímulo para a prática precoce do ato sexual. Em relação à homossexualidade, essa preocupação se maximiza de tal modo, pois além de desvio moral esse assunto é tratado também como doença, como algo que se contrai no contato com a pessoa “contaminada”. Assim, assuntos referentes à sexualidade só são socialmente aceitos no espaço escolar se a abordagem levar em consideração os aspectos da reprodução humana, descartando-se as reflexões sobre os padrões e a perpetuação da moral. Segundo Foucault, deve-se falar de sexo não simplesmente como algo a ser tolerado ou condenado, mas gerido e inserido em sistema de utilidade, “regulado para o bem de todos, fazer funcionar segundo um padrão ótimo. O sexo não se julga apenas, administra-se” (FOCAULT 1997, p.27). Por mais que a sociedade de hoje dê às questões de ordem sexual um lugar de destaque, numa tentativa claudicante de mostrar a quebra dos paradigmas medievais ou culturais e religiosos que ferem o direito do indivíduo de viver o que em essência ele é, ainda assim as relações negativas são feitas quanto a conduta sexual do indivíduo, criando regras, decidindo o que é lícito ou ilícito, permitido ou proibido, “das instâncias da dominação social às estruturas constitutivas do próprio sujeito” (FOCAULT 1997, p.27), e o que está em jogo é o poder.
terça-feira, 24 de maio de 2011
escritos antigos
Fome de amor
Charles Figueiredo
Eu sou nascido das entranhas de um mundo mau.
Comparado a um filho teu, eu sou o marginal,
A ferida que na vida apareceu.
Eu sou o retrato do descaso de um país
Que por natureza é verde e se diz feliz
Matizando de amarelo a fome de um infeliz.
Do que me vale o teu falar
Se não vens a minha fome saciar?
Do que me valerá o teu sorrir
Se ele é tão frio e vazio está o teu coração?
Tente entender e agir
Não basta compaixão.
Eu sei que existe tanta gente que ainda pensa ser
Um ser especial, transcendental ou cheio de poder
Talvez essas pessoas morram sem saber
Que são tão iguais a mim ou até pior
São almas gêmeas dos detritos que estão no pó.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Do que os sonhos são feitos
A fantasia
Nossa casa nunca foi espaço dos mais propícios à criação dos mundos imaginários. Sempre que me recordo dos anos em São Paulo há sempre tanta neblina nas imagens, recordo-me dos dias frios das mãos aquecidas na boca do fogão ligado deixando existir a chama azul do gás, tão linda e aconchegante! Além da imagem do fogão ligado, o sofá e o cobertor em frente ao televisor preto e branco as deliciosas musiquinhas e aventuras dos "Barbapapas" seguidos da raiva do chefe de Peter Parker, pra mim ele era o grande vilão com aquele bigodinho ridículo a la Hitler... Tardes dedicadas ao Homem -Aranha (e mamãe sempre cantava as musiquinhas da abertura dos desenhos junto com a gente).
Sempre tivemos imaginação fértil como toda criança, construíamos nosso universo mágico, o desenho era real e os personagens fantasiados existiam: do Sítio do Pica-Pau Amarelo à Vila Sésamo... Entretanto, não nos mantivemos na fantasia por muito tempo, havia um sádico prazer de nossa mãe de destruir qualquer possibilidade de crença nos elementos como Papai Noel, Coelho da Páscoa, ou qualquer outro personagem imaginário (incluindo todos os do Sítio), quando ainda tínhamos cinco anos de idade. Era frustrante ver tantos bichinhos bonitinhos e se emocionar com o que eles diziam ao mesmo tempo que éramos compelidos a não crer em sua existência.
Não a culpo, ela teve sua dose de desilusão desde muito cedo, começando a costurar profissionalmente aos doze anos e enfrentando todos os tipos de situação desagradável para alguém dessa idade, sendo mandada para casa de estranhos, sendo humilhada de muitas maneiras e amargurando-se por dentro. Não justifica-se por isso também castrar as ilusões dos outros, mas cada um reage a seu modo frente às situações adversas da vida e as digere de modo particular.
Fomos desde cedo programados a entender que tudo custava dinheiro, que era proibido querer e pedir qualquer coisa na rua porque não tínhamos dinheiro para comprar nada que estivesse fora da lista de comida, aluguel, água e luz. Fomos programados a não gritar, não sair dos portões para brincar com quem quer que fosse e nossa sociabilidade se dava assim: eu e meu irmão, meu irmão e eu. Não conversávamos com outras crianças, não corríamos, não andávamos descalços, éramos discretíssimos em meio aos adultos... se ninguém nos visse entrar nem saberiam que havia criança no recinto tamanho era o silêncio e a discrição dos nossos movimentos onde estivéssemos... Crianças elogiadíssimas.
Crescemos órfãos da fantasia e quase perpetuávamos o prazer em desmanchar as ilusões alheias também: fazíamos questão de dizer pra outras crianças que quem dá o presente no natal são os pais,e que alguém é pago pra vestir as fantasias dos bichinhos falantes, dos super-heróis, que tudo na televisão "era de mentira" menos o que passava no noticiário.
Aos oito anos, em Ibirapitanga, éramos impedidos de assistir televisão de manhã se não tivéssemos cumprido as tarefas domésticas, quando terminávamos era quase hora de ir para escola à tarde, na volta, tínhamos que fazer os exercícios e estudar um pouco mais... ao menos nos era permitido, nessa idade, ir brincar quase todo fim de tarde com os amigos que moravam em outro bairro... um pouco de fantasia se fazia presente porque podíamos ser vaqueiros, bandidos e mocinhos, detetives, personagens de filmes... podíamos brincar de esconde-esconde (era como chamávamos o que hoje se chama pique esconde) e sempre nos escondíamos a duas ruas de distância e às vezes em outro bairro longe de onde se deveria bater e gritar "tintolé, tintolé" (era com gritávamos porque foi assim que aprendemos na rua, mas acho que deveria ser algo como trinta e olé, sei lá).
Desde tão cedo, nunca sonhamos em ver qualquer coisa no comercial da tv e desejar... nunca havia dinheiro pra comprar e quando se comprava algo fazia-se questão de mostrar a necessidade de fazer durar, que um sacrifício tinha sido feito, que nenhum bônus igual viria tão cedo, e quase sempre algo era comprado pra ser partilhado por nós três... Lembro-me do pianinho de brinquedo que ganhamos: mamãe e papai brincavam com ele a maior parte do tempo, a nós era permitido tocar uma musiquinha cada um (e com interferência de mamãe) e ao final, ele ia pra cima do guarda-roupa pra evitar ser quebrado.
Aprendemos a fazer paraquedas com sacolas plásticas e pendurar um soldadinho lançando-o com uma pedra para o alto e ele voltava planando, aprendemos a fazer carrinhos de lata de sardinhas, andadores com lata de leite, túneis na terra, cercas de gravetos para guardar os cavalinhos ocos de plásticos achados na rua ou dados por alguém.
Lembrar de fantasias perdidas me faz lembrar de quando comecei a escrever e quando comecei a desenhar, dolorosos processos sem boa vontade de mamãe para fazer-de-conta às vezes e elogiar para motivar meu progresso... mas acredito que isso será assunto para o dedo de prosa de outro momento.
Nossa casa nunca foi espaço dos mais propícios à criação dos mundos imaginários. Sempre que me recordo dos anos em São Paulo há sempre tanta neblina nas imagens, recordo-me dos dias frios das mãos aquecidas na boca do fogão ligado deixando existir a chama azul do gás, tão linda e aconchegante! Além da imagem do fogão ligado, o sofá e o cobertor em frente ao televisor preto e branco as deliciosas musiquinhas e aventuras dos "Barbapapas" seguidos da raiva do chefe de Peter Parker, pra mim ele era o grande vilão com aquele bigodinho ridículo a la Hitler... Tardes dedicadas ao Homem -Aranha (e mamãe sempre cantava as musiquinhas da abertura dos desenhos junto com a gente).
Sempre tivemos imaginação fértil como toda criança, construíamos nosso universo mágico, o desenho era real e os personagens fantasiados existiam: do Sítio do Pica-Pau Amarelo à Vila Sésamo... Entretanto, não nos mantivemos na fantasia por muito tempo, havia um sádico prazer de nossa mãe de destruir qualquer possibilidade de crença nos elementos como Papai Noel, Coelho da Páscoa, ou qualquer outro personagem imaginário (incluindo todos os do Sítio), quando ainda tínhamos cinco anos de idade. Era frustrante ver tantos bichinhos bonitinhos e se emocionar com o que eles diziam ao mesmo tempo que éramos compelidos a não crer em sua existência.
Não a culpo, ela teve sua dose de desilusão desde muito cedo, começando a costurar profissionalmente aos doze anos e enfrentando todos os tipos de situação desagradável para alguém dessa idade, sendo mandada para casa de estranhos, sendo humilhada de muitas maneiras e amargurando-se por dentro. Não justifica-se por isso também castrar as ilusões dos outros, mas cada um reage a seu modo frente às situações adversas da vida e as digere de modo particular.
Fomos desde cedo programados a entender que tudo custava dinheiro, que era proibido querer e pedir qualquer coisa na rua porque não tínhamos dinheiro para comprar nada que estivesse fora da lista de comida, aluguel, água e luz. Fomos programados a não gritar, não sair dos portões para brincar com quem quer que fosse e nossa sociabilidade se dava assim: eu e meu irmão, meu irmão e eu. Não conversávamos com outras crianças, não corríamos, não andávamos descalços, éramos discretíssimos em meio aos adultos... se ninguém nos visse entrar nem saberiam que havia criança no recinto tamanho era o silêncio e a discrição dos nossos movimentos onde estivéssemos... Crianças elogiadíssimas.
Crescemos órfãos da fantasia e quase perpetuávamos o prazer em desmanchar as ilusões alheias também: fazíamos questão de dizer pra outras crianças que quem dá o presente no natal são os pais,e que alguém é pago pra vestir as fantasias dos bichinhos falantes, dos super-heróis, que tudo na televisão "era de mentira" menos o que passava no noticiário.
Aos oito anos, em Ibirapitanga, éramos impedidos de assistir televisão de manhã se não tivéssemos cumprido as tarefas domésticas, quando terminávamos era quase hora de ir para escola à tarde, na volta, tínhamos que fazer os exercícios e estudar um pouco mais... ao menos nos era permitido, nessa idade, ir brincar quase todo fim de tarde com os amigos que moravam em outro bairro... um pouco de fantasia se fazia presente porque podíamos ser vaqueiros, bandidos e mocinhos, detetives, personagens de filmes... podíamos brincar de esconde-esconde (era como chamávamos o que hoje se chama pique esconde) e sempre nos escondíamos a duas ruas de distância e às vezes em outro bairro longe de onde se deveria bater e gritar "tintolé, tintolé" (era com gritávamos porque foi assim que aprendemos na rua, mas acho que deveria ser algo como trinta e olé, sei lá).
Desde tão cedo, nunca sonhamos em ver qualquer coisa no comercial da tv e desejar... nunca havia dinheiro pra comprar e quando se comprava algo fazia-se questão de mostrar a necessidade de fazer durar, que um sacrifício tinha sido feito, que nenhum bônus igual viria tão cedo, e quase sempre algo era comprado pra ser partilhado por nós três... Lembro-me do pianinho de brinquedo que ganhamos: mamãe e papai brincavam com ele a maior parte do tempo, a nós era permitido tocar uma musiquinha cada um (e com interferência de mamãe) e ao final, ele ia pra cima do guarda-roupa pra evitar ser quebrado.
Aprendemos a fazer paraquedas com sacolas plásticas e pendurar um soldadinho lançando-o com uma pedra para o alto e ele voltava planando, aprendemos a fazer carrinhos de lata de sardinhas, andadores com lata de leite, túneis na terra, cercas de gravetos para guardar os cavalinhos ocos de plásticos achados na rua ou dados por alguém.
Lembrar de fantasias perdidas me faz lembrar de quando comecei a escrever e quando comecei a desenhar, dolorosos processos sem boa vontade de mamãe para fazer-de-conta às vezes e elogiar para motivar meu progresso... mas acredito que isso será assunto para o dedo de prosa de outro momento.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
O perfume
Recordo-me de cheiros
específicos que me emocionam por demais: o primeiro é o de um perfume num vidro
de um azul royal bonito... tenho a lembrança de minha mãe usando esse perfume
quando ia à igreja no domingo à noite. Vem-me à lembrança também um perfume num
vidro cilíndrico com a tampinha em forma de maçã que usávamos após tomar banho,
entretanto, o cheiro que mais me intrigou e intriga é o cheiro do aconchego.
Eu arrastava pela casa um cobertor o qual era impossível afastar do nariz... (essa talvez seja minha segunda remota lembrança mais nítida, considerando que na época eu devia ter uns quatro anos) aquele cobertor me dizia tanto sem uma única palavra. Dormir sem ele era a morte (inclusive do silêncio da casa), sem ele o caos estava instaurado. Havia dias em que mamãe o punha pra ser lavado e quando eu acordava e ele não estava lá era como se um ente querido tivesse sido sequestrado no meio da noite e tudo que se podia fazer era esperar o bilhete de resgate em meio ao choro e ao desespero. Ah! Como era ruim o cheiro de sabão em pó nele! Era como se a justificativa de sua existência se perdesse, o conforto residia em saber que em poucos dias o cheirinho bom que ele tinha voltaria lentamente.
Não havia jeito. Separação? Nem pensar! Mamãe se viu obrigada a cortar um retângulo para que ele pudesse me acompanhar mais facilmente... agora éramos do tamanho exato um para o outro. Chupeta? Não, nunca! Isso era artigo execrável para qualquer um de nós em casa, dedo na boca então, um nojo! Ah,mas meu cobertor! Havia nele um consolo tão inefável, impossível não dormir embalado pelo cheiro que ele emanava, era cheiro de aconchego, de conforto, de sossego (agora só me vem à cabeça a imagem do Linus, aquele amiguinho do Charlie Brown do Snoop, que viva carregando o cobertorzinho...).
Vez ou outra, depois de grande, eu ainda sentia nos cobertores que mamãe lavava, o cheiro do meu antigo pedaço de conforto, mas não durava muito tempo a sensação de bem estar por causa da alergia a todo e qualquer cobertor, desenvolvida aos dez anos de idade. Dos cobertores agora só a distância, mas o olfato ainda me arrebata a tanta coisa, rostos, lugares, situações... inclusive as que não vivi.
Mundos retornam no cheiro da torta coberta de pêssegos no aniversário de 40 anos do meu pai, no cheiro do pó compacto e do perfume de minha avó, da testa de minha irmã recém-nascida com lacinho vermelho na cabeça, do cheiro dos brinquedos quando novos, das crianças mais pobres que nós- que moravam na casa em frente- e a quem mamãe deu o berço onde eu dormia... eles tinham um cheiro que eu nunca tinha sentido em casa, era cheiro de gente aglomerada que pedia com os olhos e talvez entre os pedidos nunca pensaram em incluir um chuveiro.
Me ocorre o cheiro dos meus nove anos, quando morávamos em Ibirapitanga, ganhei um único presente: um vidro grande de "Alfazema Suissa". Usei-o na mesma hora. Nunca tinha ganhado um presente de aniversário antes, nunca tínhamos sido convidados a nenhum aniversário, meu irmão e eu ( mamãe sempre dizia que não podíamos levar presentes por que não tínhamos dinheiro para comprá-los). Cinco dias após meu aniversário, seria aniversário de um coleguinha da escola que "gentilmente" nos convidou para a festa. Sempre foi óbvio entre as crianças que se alguém é convidado o presente virá consequentemente: ultraje não recebê-lo, vergonha não levá-lo. Na presença de mamãe, em compras no supermercado, respondi ao colega que não precisava nos dar o convite porque não iríamos e quando ensaiava explicar o motivo, mamãe atalhou a conversa: "Receba o convite, menino!" Agradeci, e voltei pra casa com o mundo sobre as costas: sermos os únicos a chegar sem presente, olhados com desdém pelos demais.
Estávamos ansiosos para que o dia do aniversário chegasse logo, era o primeiro evento social para o qual tínhamos sido formalmente convidados, meu irmão e eu. Triste, mas certo de que valia o preço da tristeza, e com o consentimento de mamãe, com o mesmo papel e fita, embrulhei de volta o vidro de "Alfazema Suisa" que há poucos dias ganhara: agora podia estar à altura dos outros na festa, eu também levara presente!
A casa do aniversariante não tinha cheiro de festa, não estávamos acostumados ao cheiro de cerveja que o pai do nosso colega tomava, todas as crianças tinham cheiro de banho tomado... o bolo era em forma de chapéu e cheiro algum exalava dele. Deslocados e cansados de brincar das quatro da tarde até às sete da noite voltamos pra casa com cheiro de suor e nem um pedaço de bolo comemos sob o pretexto dado pela mãe do aniversariante (gorda e varizenta) de que esperavam por uma "tia" que chegaria de Salvador no fim da noite... senti o fétido cheiro da decepção.
Eu arrastava pela casa um cobertor o qual era impossível afastar do nariz... (essa talvez seja minha segunda remota lembrança mais nítida, considerando que na época eu devia ter uns quatro anos) aquele cobertor me dizia tanto sem uma única palavra. Dormir sem ele era a morte (inclusive do silêncio da casa), sem ele o caos estava instaurado. Havia dias em que mamãe o punha pra ser lavado e quando eu acordava e ele não estava lá era como se um ente querido tivesse sido sequestrado no meio da noite e tudo que se podia fazer era esperar o bilhete de resgate em meio ao choro e ao desespero. Ah! Como era ruim o cheiro de sabão em pó nele! Era como se a justificativa de sua existência se perdesse, o conforto residia em saber que em poucos dias o cheirinho bom que ele tinha voltaria lentamente.
Não havia jeito. Separação? Nem pensar! Mamãe se viu obrigada a cortar um retângulo para que ele pudesse me acompanhar mais facilmente... agora éramos do tamanho exato um para o outro. Chupeta? Não, nunca! Isso era artigo execrável para qualquer um de nós em casa, dedo na boca então, um nojo! Ah,mas meu cobertor! Havia nele um consolo tão inefável, impossível não dormir embalado pelo cheiro que ele emanava, era cheiro de aconchego, de conforto, de sossego (agora só me vem à cabeça a imagem do Linus, aquele amiguinho do Charlie Brown do Snoop, que viva carregando o cobertorzinho...).
Vez ou outra, depois de grande, eu ainda sentia nos cobertores que mamãe lavava, o cheiro do meu antigo pedaço de conforto, mas não durava muito tempo a sensação de bem estar por causa da alergia a todo e qualquer cobertor, desenvolvida aos dez anos de idade. Dos cobertores agora só a distância, mas o olfato ainda me arrebata a tanta coisa, rostos, lugares, situações... inclusive as que não vivi.
Mundos retornam no cheiro da torta coberta de pêssegos no aniversário de 40 anos do meu pai, no cheiro do pó compacto e do perfume de minha avó, da testa de minha irmã recém-nascida com lacinho vermelho na cabeça, do cheiro dos brinquedos quando novos, das crianças mais pobres que nós- que moravam na casa em frente- e a quem mamãe deu o berço onde eu dormia... eles tinham um cheiro que eu nunca tinha sentido em casa, era cheiro de gente aglomerada que pedia com os olhos e talvez entre os pedidos nunca pensaram em incluir um chuveiro.
Me ocorre o cheiro dos meus nove anos, quando morávamos em Ibirapitanga, ganhei um único presente: um vidro grande de "Alfazema Suissa". Usei-o na mesma hora. Nunca tinha ganhado um presente de aniversário antes, nunca tínhamos sido convidados a nenhum aniversário, meu irmão e eu ( mamãe sempre dizia que não podíamos levar presentes por que não tínhamos dinheiro para comprá-los). Cinco dias após meu aniversário, seria aniversário de um coleguinha da escola que "gentilmente" nos convidou para a festa. Sempre foi óbvio entre as crianças que se alguém é convidado o presente virá consequentemente: ultraje não recebê-lo, vergonha não levá-lo. Na presença de mamãe, em compras no supermercado, respondi ao colega que não precisava nos dar o convite porque não iríamos e quando ensaiava explicar o motivo, mamãe atalhou a conversa: "Receba o convite, menino!" Agradeci, e voltei pra casa com o mundo sobre as costas: sermos os únicos a chegar sem presente, olhados com desdém pelos demais.
Estávamos ansiosos para que o dia do aniversário chegasse logo, era o primeiro evento social para o qual tínhamos sido formalmente convidados, meu irmão e eu. Triste, mas certo de que valia o preço da tristeza, e com o consentimento de mamãe, com o mesmo papel e fita, embrulhei de volta o vidro de "Alfazema Suisa" que há poucos dias ganhara: agora podia estar à altura dos outros na festa, eu também levara presente!
A casa do aniversariante não tinha cheiro de festa, não estávamos acostumados ao cheiro de cerveja que o pai do nosso colega tomava, todas as crianças tinham cheiro de banho tomado... o bolo era em forma de chapéu e cheiro algum exalava dele. Deslocados e cansados de brincar das quatro da tarde até às sete da noite voltamos pra casa com cheiro de suor e nem um pedaço de bolo comemos sob o pretexto dado pela mãe do aniversariante (gorda e varizenta) de que esperavam por uma "tia" que chegaria de Salvador no fim da noite... senti o fétido cheiro da decepção.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Gritar é preciso, viver não é preciso

Hoje é dia de gritar, mas gritar alto, sem reservas sem restrições, be a freak bitch. Deixa ecoar pra quem quiser ouvir e quem não quiser que tape os ouvidos!
Ser livre é necessidade, expressar-se é obrigação pra limpar o espírito, pra exorcizar os demônios, pra encontrar lucidez no caos do mundo moderno, shout out loud o que te angustia, o que te faz infeliz, o que te incomoda.
Silêncio é ouro,alguém já disse. Não seja ganancioso avarento acumulando tesouro esbanje, gaste um pouco mais, despeje o ouro no dia de hoje e simplesmente GRITE. Grite por mais amor, por sossego, pela preguiça, pelo direito de ser e pelo direito de não ser. Grite pela supressão dos limites, das injúrias, das perfídias, das infâmias. Grite pela bênção do barulho, da agitação, do estado de êxtase e descontrole.
Seja inteiro pra si, convicto do que querer, do que deixar, do que levar. Desligue-se da apregoada normalidade e sem culpa be crazzy. Não guarde espaço para arrependimentos de qualquer espécie, não seja o amiguinho, puritanozinho amigo das estruturas corretíssimas politicamente.
Beije o ar, saúde o amor ainda que seja o amor a si mesmo, à alegria de ser, de estar, de poder. Se envolva em um affair consigo mesmo, afague o ego, massageie a alma com...
...um grito!
terça-feira, 17 de maio de 2011
Um pouco de veneno não faz mal a ninguém
Charles Figueiredo
No meio da mata,
Tão gorda, tão gasta
Velhinha primata
Logo apareceu.
Seu dente de ouro
Lembrava besouro,
Seu pai era mouro
E a mãe faleceu.
Já vinha rolando,
Roncando e bufando,
Tirana mandando
A todos calar.
Queria ser bela
Montada na sela,
Quando foi donzela
Queria casar.
Agora tão gasta,
Medonha, nefasta,
Não anda, se arrasta
Pedindo favor
Ao sapo do lodo
Tão cheio de engodo
Que s’entregou todo
Em juras d’amor.
Coitada da feia
Caindo na teia
Nem vê que semeia
O que colhe amanhã.
Achando que o sapo
Beijando o farrapo
Será mais que trapo,
Será seu galã!
Sozinha no mundo
Pois seu sapo imundo
Fugiu com Raimundo
Levando o quinhão
Da boba maldita
Tão feia na fita
Caiu na birita
sem troco pro pão.
Era só um dia de chuva (há dez anos)
Deseternidade
Charles Figueiredo
O que somos nós?
Que espectro, que essência nos preenche?
Ânsia?
Desespero?
Sofreguidão?
Desejos?
Necessidade de libertação,
De sermos por inteiro o que somos.
Somos muitos,
Partes de um todo.
Somos o todo em nossa totalidade.
Esperamos uma manhã
Doce,
Límpida,
Onde o baço cristal se rompa ao cantar de aves:
Vozes do conhecimento.
Princípio de tudo,
Brios e princípios,
Escrúpulos.
Conheço eu a vós?
Sei apenas o que importa
E isso é tudo que preciso saber.
Não, não cantemos o amanhã
Sua vinda é imprescindível,
Inevitável
E ele será tudo o que tiver de ser.
Celebremos o agora,
Dancemos ao som do adufe e da flauta
Loucamente,
Inconsequentemente
E que essa loucura seja santa,
Branda, doce e santa,
Intensa, viva e santa
Porque dentro de nós,
Em nossa eterna retidão,
Moram demônios que preferimos por a dormir.
Que eles durmam
E nós nos conheçamos.
Que eles durmam,
Pois nós não nos controlamos.
Que eles durmam
E despertem sempre bêbados
Para que nós nos entendamos.
Que eles nunca morram,
Para que em nós haja sempre o equilíbrio:
Haveria o bem em mim sem o meu mal?
Somos poucos,
Somos fracos,
Migalhas de restos de átomos do universo.
O que no faz especiais?
Amamos o outro para não sermos esquecidos.
Construímos com o outro, para sermos perpetuados.
Estabelecemos relações para nos mantermos vivos.
Vida de nuvens de pontos infinitos...
Charles Figueiredo
O que somos nós?
Que espectro, que essência nos preenche?
Ânsia?
Desespero?
Sofreguidão?
Desejos?
Necessidade de libertação,
De sermos por inteiro o que somos.
Somos muitos,
Partes de um todo.
Somos o todo em nossa totalidade.
Esperamos uma manhã
Doce,
Límpida,
Onde o baço cristal se rompa ao cantar de aves:
Vozes do conhecimento.
Princípio de tudo,
Brios e princípios,
Escrúpulos.
Conheço eu a vós?
Sei apenas o que importa
E isso é tudo que preciso saber.
Não, não cantemos o amanhã
Sua vinda é imprescindível,
Inevitável
E ele será tudo o que tiver de ser.
Celebremos o agora,
Dancemos ao som do adufe e da flauta
Loucamente,
Inconsequentemente
E que essa loucura seja santa,
Branda, doce e santa,
Intensa, viva e santa
Porque dentro de nós,
Em nossa eterna retidão,
Moram demônios que preferimos por a dormir.
Que eles durmam
E nós nos conheçamos.
Que eles durmam,
Pois nós não nos controlamos.
Que eles durmam
E despertem sempre bêbados
Para que nós nos entendamos.
Que eles nunca morram,
Para que em nós haja sempre o equilíbrio:
Haveria o bem em mim sem o meu mal?
Somos poucos,
Somos fracos,
Migalhas de restos de átomos do universo.
O que no faz especiais?
Amamos o outro para não sermos esquecidos.
Construímos com o outro, para sermos perpetuados.
Estabelecemos relações para nos mantermos vivos.
Vida de nuvens de pontos infinitos...
Escritos de dias sombrios (há dois anos)
Ode ao self
Charles Figueiredo
Charles Figueiredo
Com as mãos postas em sentido de oração
Construo um instante,
Cresço a partir de dentro,
Reflito meu ser em essências e me perco.
Encontro-me... Encontram-me:
Rei deposto que jaz em folhas secas,
Rosto coberto de pó, sangue e caos;
Seu véu funerário abranda o amargor
Gravado na expressão do último instante de vida...
Seu véu funerário é o dissabor e a solidão que o moldaram,
Amaciaram,
Cortaram,
Calaram.
Com as mãos postas em sentido de oração
Desconstruo um mundo
Inútil e patético...
Lastimável...
E o rei no chão se revela:
É apenas um infante débil e inacabado,
O que nunca será,
O que passou como sombra e nem marcas deixou.
Seu rosto é tão velho, tão desgastado
Tão paradoxalmente novo e desgastado.
Com minhas mãos atadas e postas à força em contrição
Remôo a ferida em dor lancinante
Mato a parte digna de humanidade...
Em humana idade apodreço o coração-menino...
Envolto em vergonha enterro o homem-rei
E ele tinha asas e falava comigo de mundos que eu sabia jamais alcançaria.
Com minhas duas mãos postas espalmadas ao ar
Clamo,
Grito,
Evoco ao nada- meu pai, meu irmão
E me descubro meu próprio genitor...
Só eu sou meu igual;
E meu grito sufoca o fôlego que produz a repetição dos dias;
Meu clamor retorna estéril
Como o regurgitar na noite que cala a vida no meio do sono.
Com minhas duas mãos perdidas no vácuo,
Sigo tateando, toco o que tanto quis
E engulo em vertigem o fel. Sorvo cada gota...
É isso regozijo?
Que rei que nada! Era só um bobo da corte
Que se fantasiou,
Que ousou querer,
Com minhas duas mãos sobre esse túmulo postas,
Eu oro por ele- era só um infame!
Talvez ele merecesse ter vivido, fosse a vida uma realidade.
Talvez ele devesse ter amado, não fosse o amor o maior de todos os engodos,
Embustes, laços, poços de destruição.
Com minhas duas mãos desesperadamente ativas
Teço a teia que outrora abandonei ...
Em humana condição perdi o veneno, domestiquei o coração...
O sangue que verto é o pagamento pela ousadia do sonho,
É o preço das asas que julguei merecedor de possuir.
Com minhas mãos mundanas e vis arranco a santidade,
Lacero as asas,
Reclamo de volta meu cetro destruidor,
Minha habilidade de teia, minha condição de não-classificável,
De inominável, de destruidor obscuro.
Com minhas mãos crispadas em atitude de vitória enterro a ilusão,
Aniquilo o amor, extirpo a bondade e a fraqueza...
O amor é a fraqueza exaltada dos tolos, dos perdedores, dos débeis,
Que mutila as mãos construtoras das teias das viúvas-negras.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Quem vem lá?
Por sermos seres sociais nos vemos em constante necessidade de interação, criação de laços de qualquer sorte. Ninguém é tão completamente só quanto pensa, entretanto muitas relações não são tão verdadeiras e íntegras quanto aparentam.
Já disse anteriormente que há na atitude humana sempre o estigma do egoísmo: marca profunda, indelével. Porém, houve uma época que acreditei na existência de um altruísmo que esperava como retribuição a saciedade da fome de sentir-se útil, importante, imprescindível (o que não deixa de ter o rastro do egoísmo já que perpassa uma satisfação pessoal), mas válido por ser extensivo a outro ser que não o próprio umbigo.
Por vezes me deparei com situações nas quais grande parte dessas supostas ações altruístas se esboroaram sem maior valia descartada como bagaço de laranja espremida e sorvida... por vezes pensei ter aprendido ( o ser humano, por acaso aprende alguma coisa e guarda-a pra sempre nessa vida miserável?) e repetidas vezes cometi o mesmo erro de acreditar, de ser sensível ao outro... tolice! Não quero afirmar em termos de vingança que a primeira pessoa do singular tem sempre razão, mas o fato é que mesmo não tendo razão e reconhecendo e tentando retratações sempre seremos lembrados pela falha: a velha história do 1% de malignidade sobrepujando os 99% de bondade.
Quando no mais profundo momento de necessidade nunca há alguém por perto da maioria dos aflitos, dor é coisa que se vive e carrega sozinho. É preciso criar as cascas, as proteções, é preciso indagar sempre: "Quem vem lá? O que deseja?", é preciso escutar a resposta para saber como agir, é preciso correr pra muito longe se a resposta não vem ou se demora a se esclarecer, pois a vida acontece num tempo que urge e é por demais escasso para ser desperdiçado na espera.
É preciso entender uma coisa, com urgência: em nossa história pessoal somos sempre os artistas principais e o palco é pequeno demais pra dividirmos os holofotes com os atores coadjuvantes de segunda classe que não merecem sequer o espaço na coxia como contra-regra.É preciso urgência na dispensa de pesos mortos de nossas vidas que nelas entram sob o manto falso da palavra AMIGO. É preciso poupar o ouvidos das declarações falsas, podar da alma os galhos aniquilados que não resistiram ao sol da verdade e mais que tudo é preciso entender (e isso leva tempo) que o amigos verdadeiros (com egoísmo e tudo por que isso constitui a essência humana) cabem, com folga, na conta dos dedos de uma única mão e nisso não há demérito algum, pelo contrário, felizes são aqueles que podem usar dois dedos para enumerar os amigos que tem. Se pararmos pra analisar com meticuloso cuidado perceberemos que são sempre esses que aparecem não quando o copo de cerveja está cheio e a carteira estufada, não quando fez sol nas manhãs de domingo e o convite pra viajar foi inevitável, mas quando a vontade de largar o lazarento desterrado é sobrepujada pelo amor da frase: " não posso deixá-lo aqui no chão, ele é meu amigo! Estes às vezes somem por longo tempo, podem nem dizer todos o dias "eu te amo" ou simplesmente nunca dizerem, pois suas ações no momento mais preciso já falam por si e são superiores e a toda e qualquer palavra.
Somos seres coletivamente sós, mas o bom é que a solidão é compartilhada por aqueles que são iguais a nós. E acredite, muito difícil é encontrar os iguais aos quais se pode chamar AMIGOS. Bom é ser polido e cortês com os que pela vida andam e pelo caminho aparecem, para que a polidez e a cortesia seja retribuida a você e se isso não acontecer ignore-os como se nunca tivessem existido porque até o ódio é peso demais pra ser carregado por conta daqueles não valeram os partos das infelizes que os puseram no mundo.
Não se aproxime se não for ao menos de paz... aos meus três amigos, meu muito obrigado.
Já disse anteriormente que há na atitude humana sempre o estigma do egoísmo: marca profunda, indelével. Porém, houve uma época que acreditei na existência de um altruísmo que esperava como retribuição a saciedade da fome de sentir-se útil, importante, imprescindível (o que não deixa de ter o rastro do egoísmo já que perpassa uma satisfação pessoal), mas válido por ser extensivo a outro ser que não o próprio umbigo.
Por vezes me deparei com situações nas quais grande parte dessas supostas ações altruístas se esboroaram sem maior valia descartada como bagaço de laranja espremida e sorvida... por vezes pensei ter aprendido ( o ser humano, por acaso aprende alguma coisa e guarda-a pra sempre nessa vida miserável?) e repetidas vezes cometi o mesmo erro de acreditar, de ser sensível ao outro... tolice! Não quero afirmar em termos de vingança que a primeira pessoa do singular tem sempre razão, mas o fato é que mesmo não tendo razão e reconhecendo e tentando retratações sempre seremos lembrados pela falha: a velha história do 1% de malignidade sobrepujando os 99% de bondade.
Quando no mais profundo momento de necessidade nunca há alguém por perto da maioria dos aflitos, dor é coisa que se vive e carrega sozinho. É preciso criar as cascas, as proteções, é preciso indagar sempre: "Quem vem lá? O que deseja?", é preciso escutar a resposta para saber como agir, é preciso correr pra muito longe se a resposta não vem ou se demora a se esclarecer, pois a vida acontece num tempo que urge e é por demais escasso para ser desperdiçado na espera.
É preciso entender uma coisa, com urgência: em nossa história pessoal somos sempre os artistas principais e o palco é pequeno demais pra dividirmos os holofotes com os atores coadjuvantes de segunda classe que não merecem sequer o espaço na coxia como contra-regra.É preciso urgência na dispensa de pesos mortos de nossas vidas que nelas entram sob o manto falso da palavra AMIGO. É preciso poupar o ouvidos das declarações falsas, podar da alma os galhos aniquilados que não resistiram ao sol da verdade e mais que tudo é preciso entender (e isso leva tempo) que o amigos verdadeiros (com egoísmo e tudo por que isso constitui a essência humana) cabem, com folga, na conta dos dedos de uma única mão e nisso não há demérito algum, pelo contrário, felizes são aqueles que podem usar dois dedos para enumerar os amigos que tem. Se pararmos pra analisar com meticuloso cuidado perceberemos que são sempre esses que aparecem não quando o copo de cerveja está cheio e a carteira estufada, não quando fez sol nas manhãs de domingo e o convite pra viajar foi inevitável, mas quando a vontade de largar o lazarento desterrado é sobrepujada pelo amor da frase: " não posso deixá-lo aqui no chão, ele é meu amigo! Estes às vezes somem por longo tempo, podem nem dizer todos o dias "eu te amo" ou simplesmente nunca dizerem, pois suas ações no momento mais preciso já falam por si e são superiores e a toda e qualquer palavra.
Somos seres coletivamente sós, mas o bom é que a solidão é compartilhada por aqueles que são iguais a nós. E acredite, muito difícil é encontrar os iguais aos quais se pode chamar AMIGOS. Bom é ser polido e cortês com os que pela vida andam e pelo caminho aparecem, para que a polidez e a cortesia seja retribuida a você e se isso não acontecer ignore-os como se nunca tivessem existido porque até o ódio é peso demais pra ser carregado por conta daqueles não valeram os partos das infelizes que os puseram no mundo.
Não se aproxime se não for ao menos de paz... aos meus três amigos, meu muito obrigado.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
E por falar em misantropia...
Alma
há almas que têm
as dores secretas
as portas abertas
sempre pra dor
há almas que têm
juízo e vontades
alguma bondade
e algum amor
há almas que têm
espaços vazios
amores vadios
restos de emoção
há almas que têm
a mais louca alegria
que é quase agonia
quase profissão
a minha alma tem
um corpo moreno
nem sempre sereno
nem sempre explosão
feliz esta alma
que vive comigo
que vai onde eu sigo
o meu coração
Sueli Costa e Abel Silva
Misantropia
Não me sinto motivado hoje a escrever sobre histórias passadas. Talvez por que a sensação de misantropia que trago dentro seja crescente desde sempre e hoje ela esteja se fazendo notada... não há um motivo especial para sua manifestação hoje, mas ela está aqui.
Como a maioria das pessoas, também preferi por um tempo crer que o senso humanitário (tido como politicamente correto) fosse artigo de primeira necessidade a constituir o que sempre pretendi como humano. Sempre nos importamos com o outro por que esperamos nisso a reciprocidade, aprendemos desde muito cedo que o isolamento deve ser tido como algo negativo, que a partilha é o correto, que "amar" o outro é encontrar o verdadeiro sentido de estar vivo e todas as outras tolices do tipo...
...O ser humano morrerá tão só quanto nasceu e qualquer ato seu implicará sempre, no fundo, a existência do egoísmo premente prestes a escorrer pelas frestas possíveis e se espalhar como posseiro guardião de território marcado... possuído. Inevitável.
Há, entretanto, nas pessoas uma necessidade de demonizar determinados componentes da essência natural que nos constitui. E isso se evidencia no controle do comer, na castração da libido, na contenção da espontaneidade, mas entendo que a mais cruel de todas é a demonização do estar só, do ser só, do direito de não ser obrigado a conviver com a coletividade ou de conviver apenas o necessário para comprar um quilo de feijão e um litro d'água.
Aquele que já chegou ao grau de consciência da própria misantropia não sofre por muito tempo com o que pensam os outros ou com a própria crueldade da sociedade em estigmatizar os avessos ao convívio em coletividade (com criação de laços afetivos e vínculos emocionais extensos). A crueldade reside justamente em relação àqueles que ainda estão no meio do caminho, que ainda não encontraram a luz da própria sabedoria, que não provaram que é possível construir um universo pra si mesmo a partir de suas convicções individuais.
Talvez o mundo fosse um lugar melhor se as pessoas se espalhassem menos e se recolhessem a seus universos e fizessem deles o motivo sine qua non para a própria alegria, refúgio e salvação. Talvez a alteridade fosse realmente uma possibilidade quando por gastarmos tempo pensando e construindo os nossos "eus" deixássemos também o outro sendo feliz elaborando a si mesmo.
Não nego minha misantropia, não me envergonho de expô-la por que isso é humano, é natural. Entendo que certo grau de convívio com outros às vezes é necessário, no entanto não quero nunca mais entender que o fato de ser necessário às vezes conviver estarei obrigado a criar vínculos profundos ou laços fortes. Tudo o que nos liga, seres humanos, é uma fina linha: respeito para ser respeitado, não mato para ser eu também mantido vivo, se preciso de algo devo também oferecer algo por que é o que se espera no fim de tudo mesmo do "amor" que se pressupõe um sentimento desinteressado (ou o que ama não espera pelo outro ser também amado?) É preciso amar a três ou quatro pessoas além de si para garantir a própria sobrevivência o resto é embuste, fraqueza dos que precisam camuflar o próprio egoísmo.
Como a maioria das pessoas, também preferi por um tempo crer que o senso humanitário (tido como politicamente correto) fosse artigo de primeira necessidade a constituir o que sempre pretendi como humano. Sempre nos importamos com o outro por que esperamos nisso a reciprocidade, aprendemos desde muito cedo que o isolamento deve ser tido como algo negativo, que a partilha é o correto, que "amar" o outro é encontrar o verdadeiro sentido de estar vivo e todas as outras tolices do tipo...
...O ser humano morrerá tão só quanto nasceu e qualquer ato seu implicará sempre, no fundo, a existência do egoísmo premente prestes a escorrer pelas frestas possíveis e se espalhar como posseiro guardião de território marcado... possuído. Inevitável.
Há, entretanto, nas pessoas uma necessidade de demonizar determinados componentes da essência natural que nos constitui. E isso se evidencia no controle do comer, na castração da libido, na contenção da espontaneidade, mas entendo que a mais cruel de todas é a demonização do estar só, do ser só, do direito de não ser obrigado a conviver com a coletividade ou de conviver apenas o necessário para comprar um quilo de feijão e um litro d'água.
Aquele que já chegou ao grau de consciência da própria misantropia não sofre por muito tempo com o que pensam os outros ou com a própria crueldade da sociedade em estigmatizar os avessos ao convívio em coletividade (com criação de laços afetivos e vínculos emocionais extensos). A crueldade reside justamente em relação àqueles que ainda estão no meio do caminho, que ainda não encontraram a luz da própria sabedoria, que não provaram que é possível construir um universo pra si mesmo a partir de suas convicções individuais.
Talvez o mundo fosse um lugar melhor se as pessoas se espalhassem menos e se recolhessem a seus universos e fizessem deles o motivo sine qua non para a própria alegria, refúgio e salvação. Talvez a alteridade fosse realmente uma possibilidade quando por gastarmos tempo pensando e construindo os nossos "eus" deixássemos também o outro sendo feliz elaborando a si mesmo.
Não nego minha misantropia, não me envergonho de expô-la por que isso é humano, é natural. Entendo que certo grau de convívio com outros às vezes é necessário, no entanto não quero nunca mais entender que o fato de ser necessário às vezes conviver estarei obrigado a criar vínculos profundos ou laços fortes. Tudo o que nos liga, seres humanos, é uma fina linha: respeito para ser respeitado, não mato para ser eu também mantido vivo, se preciso de algo devo também oferecer algo por que é o que se espera no fim de tudo mesmo do "amor" que se pressupõe um sentimento desinteressado (ou o que ama não espera pelo outro ser também amado?) É preciso amar a três ou quatro pessoas além de si para garantir a própria sobrevivência o resto é embuste, fraqueza dos que precisam camuflar o próprio egoísmo.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
E por falar em odores...
"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento"...
-- Mário Quintana,

que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento"...
-- Mário Quintana,

O cheiro dele.
Escrito por Inercya
O cheiro dele me inebria
Parece que tomei uma dose de uísque sem gelo
Faz ferver por dentro
E me deixa fora de mim
O cheiro dele me vicia
Parece que injetei heroína na veia
O corpo todo treme
E o que eu sinto é só aquilo
Não posso ficar sem sentí-lo
Pois fico com um grande vazio
É bem mais que uma necessidade
É poder sentí-lo e suspirar
É ter segurança e se acalmar
É ir no céu e voltar
Parece que tomei uma dose de uísque sem gelo
Faz ferver por dentro
E me deixa fora de mim
O cheiro dele me vicia
Parece que injetei heroína na veia
O corpo todo treme
E o que eu sinto é só aquilo
Não posso ficar sem sentí-lo
Pois fico com um grande vazio
É bem mais que uma necessidade
É poder sentí-lo e suspirar
É ter segurança e se acalmar
É ir no céu e voltar
Ah, o cheiro dele...
(extraído do blog de Laura Vanessa- Recife-PE)
ainda sobre comida
Bem comido, a minha alma de nada quer saber. E nem os maiores desgostos a conseguem comover. |
| Autor: Molière , Jean |
E por falar em comida...
ARROZ DOCE - fiel à sua origem portuguesa, servido até hoje, não só nas festas juninas de todo o Brasil, mas nas mesas onde se preserva este saudável gostinho de nostalgia.
ingredientes:
- 250g de arroz
- 750ml de leite
- 250g de açúcar
- 3 gemas peneiradas
- 1 colher de sopa de manteiga
- uma pitada de sal
- casca de limão
- canela em pau
- Modo de fazer:
- Cozinhe o arroz em água com a pitadinha de sal. Mude para outra caçarola, junte o leite e deixe cozinhar até ficar bem mole. Junte o açúcar, a canela e a casca de limão. Deixe cozinhar mais um pouco, em fogo brando. Junte as gemas diluídas em um pouquinho de leite e a manteiga, e mexa de vez em quando. Retire do fogo, divida em taças e polvilhe com canela em pó.
terça-feira, 10 de maio de 2011
O banquete
Curiosamente uma das primeiras lembranças que tenho do tempo em que deslizei do berço para o chão, é a de uma formiga preta andando errante no cimento. Em minha memória ela aparece relativamente grande, talvez minha pequenez naquela época a agigantasse assim...
O fato é que houve ali, e hoje percebo, um processo hipnótico: lembro-me de desenhar com os olhos todo o percurso sinuoso dos meandros decididos em urgência pelo inseto solitário e perdido (como a galinha de domingo de Clarice Lispector- sem pai nem mãe, sozinha no mundo). Havia de minha parte uma curiosidade no seu movimento,e, se consciência eu já tivesse àquela altura, me apeteceria saber o seu itinerário.
É dado ao ser humano desde tão cedo a necessidade de querer subjugar o destino dos outros seres menores à sua própria vontade? (Digo isso e penso nos gatos!) Talvez ela me tivesse escapado pelos dedos em pinça umas duas ou três vezes antes que minha ânsia por possuir, por decidir e por descobrir concluísse o passeio do pequeno inseto preto, desse modo, e com mais urgência que a demonstrada pela formiga, a fiz parte do meu repertório permanente de sabores gravados na memória. Ao transformar o fato em palavras, acabo por me dar conta que não sei se mastiguei ou simplesmente engoli, mas recordo com precisão o cheiro/sabor.
É dado ao ser humano desde tão cedo a necessidade de querer subjugar o destino dos outros seres menores à sua própria vontade? (Digo isso e penso nos gatos!) Talvez ela me tivesse escapado pelos dedos em pinça umas duas ou três vezes antes que minha ânsia por possuir, por decidir e por descobrir concluísse o passeio do pequeno inseto preto, desse modo, e com mais urgência que a demonstrada pela formiga, a fiz parte do meu repertório permanente de sabores gravados na memória. Ao transformar o fato em palavras, acabo por me dar conta que não sei se mastiguei ou simplesmente engoli, mas recordo com precisão o cheiro/sabor.
Formigas são criaturas interessantes! Sempre que vejo uma desse tipo específico, revivo o contato com um tempo que mais parece ter sido em outra vida, e nesse contato percebo que a vontade da satisfação pessoal é o contundente motor da ações humanas. Somos compelidos desde sempre à saciedade do querer ainda que depois de algum tempo o objeto do desejo seja visto como infinitesimal, inútil, trivial... um capricho dos anseios momentâneos.
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