Nossa casa nunca foi espaço dos mais propícios à criação dos mundos imaginários. Sempre que me recordo dos anos em São Paulo há sempre tanta neblina nas imagens, recordo-me dos dias frios das mãos aquecidas na boca do fogão ligado deixando existir a chama azul do gás, tão linda e aconchegante! Além da imagem do fogão ligado, o sofá e o cobertor em frente ao televisor preto e branco as deliciosas musiquinhas e aventuras dos "Barbapapas" seguidos da raiva do chefe de Peter Parker, pra mim ele era o grande vilão com aquele bigodinho ridículo a la Hitler... Tardes dedicadas ao Homem -Aranha (e mamãe sempre cantava as musiquinhas da abertura dos desenhos junto com a gente).
Sempre tivemos imaginação fértil como toda criança, construíamos nosso universo mágico, o desenho era real e os personagens fantasiados existiam: do Sítio do Pica-Pau Amarelo à Vila Sésamo... Entretanto, não nos mantivemos na fantasia por muito tempo, havia um sádico prazer de nossa mãe de destruir qualquer possibilidade de crença nos elementos como Papai Noel, Coelho da Páscoa, ou qualquer outro personagem imaginário (incluindo todos os do Sítio), quando ainda tínhamos cinco anos de idade. Era frustrante ver tantos bichinhos bonitinhos e se emocionar com o que eles diziam ao mesmo tempo que éramos compelidos a não crer em sua existência.
Não a culpo, ela teve sua dose de desilusão desde muito cedo, começando a costurar profissionalmente aos doze anos e enfrentando todos os tipos de situação desagradável para alguém dessa idade, sendo mandada para casa de estranhos, sendo humilhada de muitas maneiras e amargurando-se por dentro. Não justifica-se por isso também castrar as ilusões dos outros, mas cada um reage a seu modo frente às situações adversas da vida e as digere de modo particular.
Fomos desde cedo programados a entender que tudo custava dinheiro, que era proibido querer e pedir qualquer coisa na rua porque não tínhamos dinheiro para comprar nada que estivesse fora da lista de comida, aluguel, água e luz. Fomos programados a não gritar, não sair dos portões para brincar com quem quer que fosse e nossa sociabilidade se dava assim: eu e meu irmão, meu irmão e eu. Não conversávamos com outras crianças, não corríamos, não andávamos descalços, éramos discretíssimos em meio aos adultos... se ninguém nos visse entrar nem saberiam que havia criança no recinto tamanho era o silêncio e a discrição dos nossos movimentos onde estivéssemos... Crianças elogiadíssimas.
Crescemos órfãos da fantasia e quase perpetuávamos o prazer em desmanchar as ilusões alheias também: fazíamos questão de dizer pra outras crianças que quem dá o presente no natal são os pais,e que alguém é pago pra vestir as fantasias dos bichinhos falantes, dos super-heróis, que tudo na televisão "era de mentira" menos o que passava no noticiário.
Aos oito anos, em Ibirapitanga, éramos impedidos de assistir televisão de manhã se não tivéssemos cumprido as tarefas domésticas, quando terminávamos era quase hora de ir para escola à tarde, na volta, tínhamos que fazer os exercícios e estudar um pouco mais... ao menos nos era permitido, nessa idade, ir brincar quase todo fim de tarde com os amigos que moravam em outro bairro... um pouco de fantasia se fazia presente porque podíamos ser vaqueiros, bandidos e mocinhos, detetives, personagens de filmes... podíamos brincar de esconde-esconde (era como chamávamos o que hoje se chama pique esconde) e sempre nos escondíamos a duas ruas de distância e às vezes em outro bairro longe de onde se deveria bater e gritar "tintolé, tintolé" (era com gritávamos porque foi assim que aprendemos na rua, mas acho que deveria ser algo como trinta e olé, sei lá).
Desde tão cedo, nunca sonhamos em ver qualquer coisa no comercial da tv e desejar... nunca havia dinheiro pra comprar e quando se comprava algo fazia-se questão de mostrar a necessidade de fazer durar, que um sacrifício tinha sido feito, que nenhum bônus igual viria tão cedo, e quase sempre algo era comprado pra ser partilhado por nós três... Lembro-me do pianinho de brinquedo que ganhamos: mamãe e papai brincavam com ele a maior parte do tempo, a nós era permitido tocar uma musiquinha cada um (e com interferência de mamãe) e ao final, ele ia pra cima do guarda-roupa pra evitar ser quebrado.
Aprendemos a fazer paraquedas com sacolas plásticas e pendurar um soldadinho lançando-o com uma pedra para o alto e ele voltava planando, aprendemos a fazer carrinhos de lata de sardinhas, andadores com lata de leite, túneis na terra, cercas de gravetos para guardar os cavalinhos ocos de plásticos achados na rua ou dados por alguém.
Lembrar de fantasias perdidas me faz lembrar de quando comecei a escrever e quando comecei a desenhar, dolorosos processos sem boa vontade de mamãe para fazer-de-conta às vezes e elogiar para motivar meu progresso... mas acredito que isso será assunto para o dedo de prosa de outro momento.
vc falou do pianinho e ainda faltou o do meu primeiro ATARI aos 20 anos que mamãe amanhecia jogando. KKKK
ResponderExcluirquando não quebrava os joy sticks todos
ResponderExcluir