Não me sinto motivado hoje a escrever sobre histórias passadas. Talvez por que a sensação de misantropia que trago dentro seja crescente desde sempre e hoje ela esteja se fazendo notada... não há um motivo especial para sua manifestação hoje, mas ela está aqui.
Como a maioria das pessoas, também preferi por um tempo crer que o senso humanitário (tido como politicamente correto) fosse artigo de primeira necessidade a constituir o que sempre pretendi como humano. Sempre nos importamos com o outro por que esperamos nisso a reciprocidade, aprendemos desde muito cedo que o isolamento deve ser tido como algo negativo, que a partilha é o correto, que "amar" o outro é encontrar o verdadeiro sentido de estar vivo e todas as outras tolices do tipo...
...O ser humano morrerá tão só quanto nasceu e qualquer ato seu implicará sempre, no fundo, a existência do egoísmo premente prestes a escorrer pelas frestas possíveis e se espalhar como posseiro guardião de território marcado... possuído. Inevitável.
Há, entretanto, nas pessoas uma necessidade de demonizar determinados componentes da essência natural que nos constitui. E isso se evidencia no controle do comer, na castração da libido, na contenção da espontaneidade, mas entendo que a mais cruel de todas é a demonização do estar só, do ser só, do direito de não ser obrigado a conviver com a coletividade ou de conviver apenas o necessário para comprar um quilo de feijão e um litro d'água.
Aquele que já chegou ao grau de consciência da própria misantropia não sofre por muito tempo com o que pensam os outros ou com a própria crueldade da sociedade em estigmatizar os avessos ao convívio em coletividade (com criação de laços afetivos e vínculos emocionais extensos). A crueldade reside justamente em relação àqueles que ainda estão no meio do caminho, que ainda não encontraram a luz da própria sabedoria, que não provaram que é possível construir um universo pra si mesmo a partir de suas convicções individuais.
Talvez o mundo fosse um lugar melhor se as pessoas se espalhassem menos e se recolhessem a seus universos e fizessem deles o motivo sine qua non para a própria alegria, refúgio e salvação. Talvez a alteridade fosse realmente uma possibilidade quando por gastarmos tempo pensando e construindo os nossos "eus" deixássemos também o outro sendo feliz elaborando a si mesmo.
Não nego minha misantropia, não me envergonho de expô-la por que isso é humano, é natural. Entendo que certo grau de convívio com outros às vezes é necessário, no entanto não quero nunca mais entender que o fato de ser necessário às vezes conviver estarei obrigado a criar vínculos profundos ou laços fortes. Tudo o que nos liga, seres humanos, é uma fina linha: respeito para ser respeitado, não mato para ser eu também mantido vivo, se preciso de algo devo também oferecer algo por que é o que se espera no fim de tudo mesmo do "amor" que se pressupõe um sentimento desinteressado (ou o que ama não espera pelo outro ser também amado?) É preciso amar a três ou quatro pessoas além de si para garantir a própria sobrevivência o resto é embuste, fraqueza dos que precisam camuflar o próprio egoísmo.
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