terça-feira, 10 de maio de 2011

O banquete

   Curiosamente uma das primeiras lembranças que tenho do tempo em que deslizei do berço para o chão, é a de uma formiga preta andando errante no cimento. Em minha memória ela aparece relativamente grande, talvez minha pequenez naquela época a agigantasse assim...
       O fato é que houve ali, e hoje percebo, um processo hipnótico: lembro-me de desenhar com os olhos todo o percurso sinuoso dos meandros decididos em urgência pelo inseto solitário e perdido (como a galinha de domingo de Clarice Lispector- sem pai nem mãe, sozinha no mundo). Havia de minha parte uma curiosidade no seu movimento,e, se consciência eu já tivesse àquela altura,  me apeteceria saber o seu itinerário.
      É dado ao ser humano desde tão cedo a necessidade de querer subjugar o destino dos outros seres menores à sua própria vontade? (Digo isso e penso nos gatos!) Talvez ela me tivesse escapado pelos dedos em pinça umas duas ou três vezes antes que minha ânsia por possuir, por decidir e por descobrir concluísse o passeio do pequeno inseto preto, desse modo, e com mais urgência que a demonstrada pela formiga, a fiz parte do meu repertório permanente de sabores gravados na memória. Ao transformar o fato em palavras, acabo por me dar conta que não sei se mastiguei ou simplesmente engoli, mas recordo com precisão o cheiro/sabor. 
       Formigas são criaturas interessantes! Sempre que vejo uma desse tipo específico, revivo o contato com um tempo que mais parece ter sido em outra vida, e nesse contato percebo que a vontade da satisfação pessoal é o contundente motor da ações humanas. Somos compelidos desde sempre à saciedade do querer ainda que depois de algum tempo o objeto do desejo seja visto como infinitesimal, inútil, trivial... um capricho dos anseios  momentâneos.

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