Ode ao self
Charles Figueiredo
Charles Figueiredo
Com as mãos postas em sentido de oração
Construo um instante,
Cresço a partir de dentro,
Reflito meu ser em essências e me perco.
Encontro-me... Encontram-me:
Rei deposto que jaz em folhas secas,
Rosto coberto de pó, sangue e caos;
Seu véu funerário abranda o amargor
Gravado na expressão do último instante de vida...
Seu véu funerário é o dissabor e a solidão que o moldaram,
Amaciaram,
Cortaram,
Calaram.
Com as mãos postas em sentido de oração
Desconstruo um mundo
Inútil e patético...
Lastimável...
E o rei no chão se revela:
É apenas um infante débil e inacabado,
O que nunca será,
O que passou como sombra e nem marcas deixou.
Seu rosto é tão velho, tão desgastado
Tão paradoxalmente novo e desgastado.
Com minhas mãos atadas e postas à força em contrição
Remôo a ferida em dor lancinante
Mato a parte digna de humanidade...
Em humana idade apodreço o coração-menino...
Envolto em vergonha enterro o homem-rei
E ele tinha asas e falava comigo de mundos que eu sabia jamais alcançaria.
Com minhas duas mãos postas espalmadas ao ar
Clamo,
Grito,
Evoco ao nada- meu pai, meu irmão
E me descubro meu próprio genitor...
Só eu sou meu igual;
E meu grito sufoca o fôlego que produz a repetição dos dias;
Meu clamor retorna estéril
Como o regurgitar na noite que cala a vida no meio do sono.
Com minhas duas mãos perdidas no vácuo,
Sigo tateando, toco o que tanto quis
E engulo em vertigem o fel. Sorvo cada gota...
É isso regozijo?
Que rei que nada! Era só um bobo da corte
Que se fantasiou,
Que ousou querer,
Com minhas duas mãos sobre esse túmulo postas,
Eu oro por ele- era só um infame!
Talvez ele merecesse ter vivido, fosse a vida uma realidade.
Talvez ele devesse ter amado, não fosse o amor o maior de todos os engodos,
Embustes, laços, poços de destruição.
Com minhas duas mãos desesperadamente ativas
Teço a teia que outrora abandonei ...
Em humana condição perdi o veneno, domestiquei o coração...
O sangue que verto é o pagamento pela ousadia do sonho,
É o preço das asas que julguei merecedor de possuir.
Com minhas mãos mundanas e vis arranco a santidade,
Lacero as asas,
Reclamo de volta meu cetro destruidor,
Minha habilidade de teia, minha condição de não-classificável,
De inominável, de destruidor obscuro.
Com minhas mãos crispadas em atitude de vitória enterro a ilusão,
Aniquilo o amor, extirpo a bondade e a fraqueza...
O amor é a fraqueza exaltada dos tolos, dos perdedores, dos débeis,
Que mutila as mãos construtoras das teias das viúvas-negras.
=)
ResponderExcluirintenso, dramático, altamente recitável, vamos fazer um sarau
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