Recordo-me de cheiros
específicos que me emocionam por demais: o primeiro é o de um perfume num vidro
de um azul royal bonito... tenho a lembrança de minha mãe usando esse perfume
quando ia à igreja no domingo à noite. Vem-me à lembrança também um perfume num
vidro cilíndrico com a tampinha em forma de maçã que usávamos após tomar banho,
entretanto, o cheiro que mais me intrigou e intriga é o cheiro do aconchego.
Eu arrastava pela casa um cobertor o qual era impossível afastar do nariz... (essa talvez seja minha segunda remota lembrança mais nítida, considerando que na época eu devia ter uns quatro anos) aquele cobertor me dizia tanto sem uma única palavra. Dormir sem ele era a morte (inclusive do silêncio da casa), sem ele o caos estava instaurado. Havia dias em que mamãe o punha pra ser lavado e quando eu acordava e ele não estava lá era como se um ente querido tivesse sido sequestrado no meio da noite e tudo que se podia fazer era esperar o bilhete de resgate em meio ao choro e ao desespero. Ah! Como era ruim o cheiro de sabão em pó nele! Era como se a justificativa de sua existência se perdesse, o conforto residia em saber que em poucos dias o cheirinho bom que ele tinha voltaria lentamente.
Não havia jeito. Separação? Nem pensar! Mamãe se viu obrigada a cortar um retângulo para que ele pudesse me acompanhar mais facilmente... agora éramos do tamanho exato um para o outro. Chupeta? Não, nunca! Isso era artigo execrável para qualquer um de nós em casa, dedo na boca então, um nojo! Ah,mas meu cobertor! Havia nele um consolo tão inefável, impossível não dormir embalado pelo cheiro que ele emanava, era cheiro de aconchego, de conforto, de sossego (agora só me vem à cabeça a imagem do Linus, aquele amiguinho do Charlie Brown do Snoop, que viva carregando o cobertorzinho...).
Vez ou outra, depois de grande, eu ainda sentia nos cobertores que mamãe lavava, o cheiro do meu antigo pedaço de conforto, mas não durava muito tempo a sensação de bem estar por causa da alergia a todo e qualquer cobertor, desenvolvida aos dez anos de idade. Dos cobertores agora só a distância, mas o olfato ainda me arrebata a tanta coisa, rostos, lugares, situações... inclusive as que não vivi.
Mundos retornam no cheiro da torta coberta de pêssegos no aniversário de 40 anos do meu pai, no cheiro do pó compacto e do perfume de minha avó, da testa de minha irmã recém-nascida com lacinho vermelho na cabeça, do cheiro dos brinquedos quando novos, das crianças mais pobres que nós- que moravam na casa em frente- e a quem mamãe deu o berço onde eu dormia... eles tinham um cheiro que eu nunca tinha sentido em casa, era cheiro de gente aglomerada que pedia com os olhos e talvez entre os pedidos nunca pensaram em incluir um chuveiro.
Me ocorre o cheiro dos meus nove anos, quando morávamos em Ibirapitanga, ganhei um único presente: um vidro grande de "Alfazema Suissa". Usei-o na mesma hora. Nunca tinha ganhado um presente de aniversário antes, nunca tínhamos sido convidados a nenhum aniversário, meu irmão e eu ( mamãe sempre dizia que não podíamos levar presentes por que não tínhamos dinheiro para comprá-los). Cinco dias após meu aniversário, seria aniversário de um coleguinha da escola que "gentilmente" nos convidou para a festa. Sempre foi óbvio entre as crianças que se alguém é convidado o presente virá consequentemente: ultraje não recebê-lo, vergonha não levá-lo. Na presença de mamãe, em compras no supermercado, respondi ao colega que não precisava nos dar o convite porque não iríamos e quando ensaiava explicar o motivo, mamãe atalhou a conversa: "Receba o convite, menino!" Agradeci, e voltei pra casa com o mundo sobre as costas: sermos os únicos a chegar sem presente, olhados com desdém pelos demais.
Estávamos ansiosos para que o dia do aniversário chegasse logo, era o primeiro evento social para o qual tínhamos sido formalmente convidados, meu irmão e eu. Triste, mas certo de que valia o preço da tristeza, e com o consentimento de mamãe, com o mesmo papel e fita, embrulhei de volta o vidro de "Alfazema Suisa" que há poucos dias ganhara: agora podia estar à altura dos outros na festa, eu também levara presente!
A casa do aniversariante não tinha cheiro de festa, não estávamos acostumados ao cheiro de cerveja que o pai do nosso colega tomava, todas as crianças tinham cheiro de banho tomado... o bolo era em forma de chapéu e cheiro algum exalava dele. Deslocados e cansados de brincar das quatro da tarde até às sete da noite voltamos pra casa com cheiro de suor e nem um pedaço de bolo comemos sob o pretexto dado pela mãe do aniversariante (gorda e varizenta) de que esperavam por uma "tia" que chegaria de Salvador no fim da noite... senti o fétido cheiro da decepção.
Eu arrastava pela casa um cobertor o qual era impossível afastar do nariz... (essa talvez seja minha segunda remota lembrança mais nítida, considerando que na época eu devia ter uns quatro anos) aquele cobertor me dizia tanto sem uma única palavra. Dormir sem ele era a morte (inclusive do silêncio da casa), sem ele o caos estava instaurado. Havia dias em que mamãe o punha pra ser lavado e quando eu acordava e ele não estava lá era como se um ente querido tivesse sido sequestrado no meio da noite e tudo que se podia fazer era esperar o bilhete de resgate em meio ao choro e ao desespero. Ah! Como era ruim o cheiro de sabão em pó nele! Era como se a justificativa de sua existência se perdesse, o conforto residia em saber que em poucos dias o cheirinho bom que ele tinha voltaria lentamente.
Não havia jeito. Separação? Nem pensar! Mamãe se viu obrigada a cortar um retângulo para que ele pudesse me acompanhar mais facilmente... agora éramos do tamanho exato um para o outro. Chupeta? Não, nunca! Isso era artigo execrável para qualquer um de nós em casa, dedo na boca então, um nojo! Ah,mas meu cobertor! Havia nele um consolo tão inefável, impossível não dormir embalado pelo cheiro que ele emanava, era cheiro de aconchego, de conforto, de sossego (agora só me vem à cabeça a imagem do Linus, aquele amiguinho do Charlie Brown do Snoop, que viva carregando o cobertorzinho...).
Vez ou outra, depois de grande, eu ainda sentia nos cobertores que mamãe lavava, o cheiro do meu antigo pedaço de conforto, mas não durava muito tempo a sensação de bem estar por causa da alergia a todo e qualquer cobertor, desenvolvida aos dez anos de idade. Dos cobertores agora só a distância, mas o olfato ainda me arrebata a tanta coisa, rostos, lugares, situações... inclusive as que não vivi.
Mundos retornam no cheiro da torta coberta de pêssegos no aniversário de 40 anos do meu pai, no cheiro do pó compacto e do perfume de minha avó, da testa de minha irmã recém-nascida com lacinho vermelho na cabeça, do cheiro dos brinquedos quando novos, das crianças mais pobres que nós- que moravam na casa em frente- e a quem mamãe deu o berço onde eu dormia... eles tinham um cheiro que eu nunca tinha sentido em casa, era cheiro de gente aglomerada que pedia com os olhos e talvez entre os pedidos nunca pensaram em incluir um chuveiro.
Me ocorre o cheiro dos meus nove anos, quando morávamos em Ibirapitanga, ganhei um único presente: um vidro grande de "Alfazema Suissa". Usei-o na mesma hora. Nunca tinha ganhado um presente de aniversário antes, nunca tínhamos sido convidados a nenhum aniversário, meu irmão e eu ( mamãe sempre dizia que não podíamos levar presentes por que não tínhamos dinheiro para comprá-los). Cinco dias após meu aniversário, seria aniversário de um coleguinha da escola que "gentilmente" nos convidou para a festa. Sempre foi óbvio entre as crianças que se alguém é convidado o presente virá consequentemente: ultraje não recebê-lo, vergonha não levá-lo. Na presença de mamãe, em compras no supermercado, respondi ao colega que não precisava nos dar o convite porque não iríamos e quando ensaiava explicar o motivo, mamãe atalhou a conversa: "Receba o convite, menino!" Agradeci, e voltei pra casa com o mundo sobre as costas: sermos os únicos a chegar sem presente, olhados com desdém pelos demais.
Estávamos ansiosos para que o dia do aniversário chegasse logo, era o primeiro evento social para o qual tínhamos sido formalmente convidados, meu irmão e eu. Triste, mas certo de que valia o preço da tristeza, e com o consentimento de mamãe, com o mesmo papel e fita, embrulhei de volta o vidro de "Alfazema Suisa" que há poucos dias ganhara: agora podia estar à altura dos outros na festa, eu também levara presente!
A casa do aniversariante não tinha cheiro de festa, não estávamos acostumados ao cheiro de cerveja que o pai do nosso colega tomava, todas as crianças tinham cheiro de banho tomado... o bolo era em forma de chapéu e cheiro algum exalava dele. Deslocados e cansados de brincar das quatro da tarde até às sete da noite voltamos pra casa com cheiro de suor e nem um pedaço de bolo comemos sob o pretexto dado pela mãe do aniversariante (gorda e varizenta) de que esperavam por uma "tia" que chegaria de Salvador no fim da noite... senti o fétido cheiro da decepção.
uma viagem pelo mundo olfativo, que é um dos grandes responsáveis por memórias, nem sempre boas... rs muito legal!
ResponderExcluirMuito emocionante...chorei na parte do "Alfazema" e do meu lacinho vermelho...rs.
ResponderExcluirhihihhihi tá sendo irônica é?
ResponderExcluirClaro que não!
ResponderExcluircara, vc me fez chorar... de tanto rir. Agora a gente rir!
ResponderExcluiré agora a gente ri. mas há ainda nessa ironia uma dorzinha enviesada... sensação de frustração
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